VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA - EU TAMBÉM FUI VÍTIMA

Tenho percebido uma grande mobilização quando o assunto é parto, nascimento, cuidados com a gestante, bebê e família. E isso é muito bom. Não estou aqui sendo ativista de uma ou outra opinião, apenas acreditando que assim as mulheres serão mais bem tratadas, os bebês serão mais respeitados e quem sabe os pré conceitos acerca de assuntos tão polêmicos sejam finalmente abolidos.

Por conta disso, tenho visto muitas publicações sobre relatos de mães que sofreram violência obstétrica e isso é infelizmente ainda uma realidade e alguns casos são extremamente absurdos e trágicos, por isso que eu luto sim por um atendimento o mais humanizado possível, pois é isso que todas as mães e bebês merecem.
Imagem retirada da internet
Depois que tive o Arthur, mergulhei no mundo da maternidade de cabeça e aprendi muitas coisas que agregaram muito na minha vida e me fizeram refletir sobre as minhas atitudes e pensamentos. Esses aprendizados me fizeram ver o quanto a gravidez, parto e pós parto do Arthur poderiam ter sido diferentes. Infelizmente não fui atrás disso antes, mas acredito que Deus faz as coisas como elas devem ser feitas e que nada é por acaso então tudo tem o seu porquê, o seu motivo.
Hoje eu agradeço a Deus por ter me dado um filho saudável, uma maternagem mais sadia e prazerosa, mas olhando lá para trás, percebo o quanto sofri calada, no escuro, no silêncio.
Imagem retirada da internet
Assim que Arthur veio ao mundo, todos parabenizavam o "doutor", um ótimo cirurgião que conseguiu fazer o parto do meu filho e que graças a ele tudo havia corrido bem. 
Só Deus sabe o quanto esse "doutor" desconstruiu qualquer tentativa de um bom atendimento, um atendimento humano, o mínimo que uma gestante merece.

E eu só fui perceber isso um bom tempo depois...
E o pior de ter percebido isso, foi ter enxergado a violência que eu vivi. Não uma violência física, mas moral, ética. E tudo a favor de um comodismo e um pouco de dinheiro, sim, por que eu não paguei nenhuma consulta de pré-natal nem o parto, nem as consultas pós parto, mas a quantidade de pacientes e partos que ele faz por dia, semana ou mês, garante um BOM dinheiro em seu bolso às custas de um atendimento superficial e desumano.

Durante toda minha gestação, suas consultas duravam não mais do que 10 minutos e para toda e qualquer dúvida que eu tinha a resposta era:

"Ah, isso é muito normal, não se preocupa com nada..." (e uma cara de "próxima paciente por favor!")

No meio da gestação quando eu cogitei querer um parto normal, a reação dele já demonstrou claramente que eu não conseguiria. Seu espanto foi tanto que os argumentos que ele me deu foram exatamente esses:

- Uma cara praticamente de nojo -
- "Olha, você tem certeza que quer se arriscar?"
- "Hoje em dia ninguém mais faz isso, não tem porque você querer fazer"
- "Você vai ACABAR de vez com a sua vida sexual, escuta o que eu estou te falando"
- "HOJE EM DIA NENHUM MÉDICO NEM LEMBRA MAIS COMO SE FAZ PARTO NORMAL MINHA QUERIDA!" - Sim, ele disse isso!
- "Ah, então, pelo seu exame do coração, eu vejo que você não vai ter força para empurrar na hora do parto e caso aconteça algo com você ou seu bebê, eu não poderei fazer absolutamente nada tá?"
* Eu tive palpitações na gestação, fiz exames com meu cardiologista que constatou que era coisas normais de uma pessoa ativa, agitada e ansiosa (prazer, eu). Nada indicava risco para mim ou bebê, muito menos para não se ter um parto normal.

Eu, totalmente ingênua e ainda com a visão de que "parto normal é para as doidas", entrei na onda dele.
No meu vídeo do relato de parto do Arthur eu até digo "Vocês podem me achar uma louca, mas no dia da cirurgia eu até queria fazer umas forças para ver se a bolsa rompia..."

Dali pra frente, foi uma série de acontecimentos que acabaram culminando em uma cesárea agendadíssima

"Bom Juliana, eu peço para minha secretária te ligar assim que eu decidir qual será o dia do parto, dia 27 ou 28. Preciso ver qual dia eu estarei mais livre. Mas olha, tem que ser nessa semana pois eu não quero que você tenha um sinal de trabalho de parto ok?"

Ok...
No dia em que completei 38 semanas, com o último ultrassom feito com 22 semanas, eu estava me internando para ter o Arthur.

Nenhuma palavra de carinho, segurança, afeto foi dita. O "doutor" nem me disse "oi", seu assistente, que eu nunca tinha visto na vida, foi mais simpático comigo naquele dia.

Uma maca menor do que eu, braços totalmente presos em formato de cruz, uma medicação mal colocada no braço (depois do parto que foram perceber que a medicação estava no local errado, meu braço estava muito inchado e dolorido), um anestesista frio que subiu em cima de mim e empurrou minha barriga como se estivesse empurrando gado e eu a espera do meu pequeno.
A cirurgia durou 20 minutos e Arthur nasceu sem eu poder tocá-lo. Já foi logo sofrer todos aqueles procedimentos desnecessários e eu fui para a recuperação.
Depois de seis horas eu vejo meu filho pela segunda vez e enfim consigo pegá-lo no colo.
Não consegui amamentar ele durante as 6 horas seguintes, foi desesperador...

Hoje eu vejo o quão cedo eu fiz Arthur nascer. Graças a Deus ele estava bem, mas eu vejo e ouço tantas histórias de partos agendados em que o bebê não estava totalmente pronto para nascer e acaba indo para a uti...

É triste saber que a minha história é pouco perto do que acontece por aí, mas é bom saber que hoje se tem cada vez mais informações e mais medidas para que isso não aconteça mais.
Um bom pré-natal (de qualidade, com muito amor e respeito envolvidos) e um bom parto (bem assistido, respeitoso) diminuem drasticamente as taxas de depressão, e complicações pós natais.
Isso não aconteceu comigo e pode não te acontecido com você também, mas se ainda não aconteceu, não deixe que aconteça!

Eu nunca mais voltei naquele médico e decidi que na segunda gestação seria tudo diferente. E foi!
Matheus veio para me libertar e para comprovar o quão poderosas nós mulheres somos. O quanto a maternagem pode e deve ser boa, tranquila e agradável!

Alguém também já sofreu violência obstétrica?
Como foi?
Como você superou?

Nenhum comentário:

Obrigada! Sua participação é muito importante!

Tecnologia do Blogger.